Atualizado: 9 de jun. de 2021

A Ruta graveloens L., conhecida como Arruda, ou mesmo, Arruda-Fedorenta, é uma planta extremamente aromática e medicinal, com pequenas folhas azul-esverdeadas e flores amarelo-esverdeadas. Pertence a família Rutaceae, que abriga mais de 1600 espécies diferentes de arbustos e pequenas árvores, inclusive, dentre elas, as frutas cítricas. As plantas desta família crescem, principalmente em países de climas tropicais, subtropicais e temperados. A Arruda não é diferente: é originária da região mediterrânea, ali entre o sul da Europa, norte da África e oeste da Ásia.


A Arruda é amplamente utilizada na medicina popular, ou tradicional. A extração de suas propriedades curativas pode ser realizada pelo método de infusão de folhas e galhos, ou seja, o preparo de chá, em dosagens baixas (de 2 a 5g de planta para cada 1 litro de água) e sempre para ser usado com fim medicinal! De acordo com a Monografia da Ruta graveolens L. (Arruda), publicada pelo Ministério da Saúde do Brasil em 2015, os usos mais recorrentes da planta, dentro do aspecto de cura do corpo físico, estão relacionadas a:


"- Dores de cabeça, no estômago, de dente, de ouvido, cólica, gases, rouquidão, cólica menstrual, dores ovarianas, de barriga, antitérmico, inflamações na pele e cãimbras;

- Recaída de mulher, emenagoga, antiséptico, anti-tétano (infecções), estimulante, abortivo, analgésico contra dores reumáticas, cólicas, amenorreia, menorragia, trombose e hematomas

- Tratamento de doenças do aparelho genital e respiratório, tosse, sinusite, infecção intestinal, bexiga e rins;

- Diurético, conjuntivite, rouquidão, digestivo e/ou calmante;

- Rigidez do pescoço, tonturas, convulsões, diabetes, problemas relacionados ao ouvido interno (tontura, zumbido, etc), neuralgia e paralisia facial;

- Repelente de mosquitos, percevejos, pulgas, tratamento de sarnas, piolhos, vermes e antiparasitária;

- Picadas de cobra, febre, nervosismo, gripes e feridas;"


As vantagens deste chá para a regulação do sistema genital feminino e para o sistema cardiovascular são atribuídas à substância flavonoide rutina, presente também em cítricos, e seu poder antioxidante. Tais vantagens, entretanto, podem ser desvantagens para quem faz uso de anticoagulantes, pois a reação do chá de arruda com tais remédios pode causar hemorragias. Além, o chá também não é recomendado para gestantes, já que pode ser abortivo.


Apesar de seu poder bioquímico medicinal e da grande quantidade de trabalhos científicos levantados relacionados às diferentes atividades farmacológicas das preparações da planta, o principal uso da espécie R. graveolens sempre esteve relacionado a folclores populares. A Arruda é empregada para energizar pessoas, afastar o mau olhado, as más vibrações de pessoas invejosas, proteger residências de visitantes com intenções ou energias negativas e é utilizada nos mais diversos rituais religiosos.

Já na Grécia antiga, a planta era usada para tratar enfermidades, atuando como um purgante (aqui ainda em termos que misturam o corpo físico e espiritual) conforme registram escritos de Hipócrates, considerado o “pai” grego da medicina. Porém, sua maior utilização era de ordem espiritual, para combater as forças do mal. O estudo de Almeida (2000) nos apresenta que a Arruda era considerada por ser “regida por Marte, dedicada à Ártemis, e ligada à saúde, à proteção e ao amor”. Diz-se, ainda, que no império romano usava-se a planta para afastar as mazelas do espírito.


Foi durante a Idade Média Europeia que a Arruda atingiu seu ápice de uso. Esteve profundamente ligada com aspectos esotéricos e associados a bruxarias - além de ser utilizada como abortiva e anticonvulsivante. Poderia ser usada com objetivo de afastar a peste negra ou espíritos ruins. No texto teatral Hamlet, a Arruda é citada como "a erva sagrada dos domingos". Dizem que ela passou a ser chamada assim, porque nos rituais de exorcismo, realizados aos domingos, era feito um preparado à base de vinho e arruda que era ingerido pelos “possuídos" antes de serem exorcizados pelos padres.


A Arruda chegou às Américas Tropicais após a colonização, junto de outras ervas e especiarias. No Brasil colônia, a Arruda foi apropriada pelos rituais africanos. A famosa pintura intitulada "O vendedor de arruda”, do artista Jean-Baptiste Debret, retrata o comércio da arruda realizado pelas escravas africanas nas terras brasileiras. Na época, ramos de Arruda eram vendidos como amuletos para sorte e proteção. Na umbanda, ainda hoje é utilizada em rezas, defumações, banhos e benzeduras, e reconhecida como uma planta de proteção e limpeza energética.



Eu estou muito feliz em poder escrever sobre e enaltecer a arruda hoje, dia em que teremos a primeira lua cheia de 2021, é uma lua poderosa para colher as bênçãos que plantamos. Que tal experimentar um banho de arruda? Basta adicionar a erva em água quente, esperar esfriar e despejar o líquido sobre ti durante o banho. Não aplique no rosto! Depois do banho da erva, passar água corrente sobre a pele, pois a arruda é rica em bergapteno, substância que pode manchar a pele!

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Atualizado: 9 de jun. de 2021

Esta publicação é continuação da série de Metas para 2021 da Plantae. Os itens I. Autocuidado e II. Presença estão integralmente disponíveis em nosso instagram - @plantaenatural.


III. Integralidade


Quando falamos de integralidade, temos na cabeça a idéia de que qualquer coisa que vive, vive dentro de um corpo. É só através deste corpo que pode viver. E o corpo, apesar de ser composto por sistemas, que por sua vez, são compostos por órgãos, que por sua vez, são formados por tecidos e células, termina por ser uma coisa só. Uma coisa inteira. Quando falamos em Integralidade, falamos de práticas que estão associadas com o reconhecimento integral, e não parcial do corpo. Práticas que envolvem o autocuidado e a presença, buscando autoconhecimento para entender os cuidados que seu corpo precisa. Esse corpo que nos permite existir no mundo é permeável por influências externas que estão a todo tempo a modificar-lo, a condicioná-lo. Como influências, podemos falar de alimentos, remédios, dos espaços por onde transitamos, das pessoas com quem convivemos, dos bons e dos maus hábitos. É a soma das práticas diárias. Além, ele está condicionado também, por sua forma fisiológica, seu funcionamento químico e reativo. Assim, nossa existência é alterada por nosso ciclo hormonal, pela qualidade de nosso processo de digestivo, pelas toxinas excretadas, ou não, pelo corpo, pelos sentimentos e sensações com que reagimos ao mundo. Para exemplificar, vamos pensar na nossa pele. É o maior órgão do corpo e o único que está em contato direto com o mundo externo. Quando a imunidade do corpo está baixa, é comum que a pele fique frágil e até apresente feridas. Ter uma pele bonita vai muito além do cuidado direto com este órgão. Claro que vale utilizar de produtos que atuam sobre ele, como argilas, óleos vegetais e esfoliações. Porém, dentro de uma perspectiva integral de corpo, ter uma pele bonita está relacionado com os fatores externos e internos acima apresentados. Pra deixar mais claro, podemos falar sobre os cremes hidratantes industriais, que na maior parte dos casos, tem como ingrediente principal os óleos minerais, ou vaselinas líquidas, substâncias derivadas de petróleo. Que quando aplicados na pele, criam uma barreira física que inibe a evaporação de água da pele, criando a sensação instantânea de maciez. Veja bem, a ação não é de hidratação e nutrição. O que acontece é apenas um bloqueio à perda de umidade. Óleos minerais podem mesmo atuar como bloqueadores da verdadeira nutrição da pele, tapar glândulas de suor e impedir a absorção de ativos hidratantes presentes no próprio creme ou em outros produtos que entram em contato com o corpo. Ou ainda os desodorantes, que usamos diariamente: a maioria deles contém alumínio em sua composição, que além de serem cancerígenos, inibem o suor, que é um liquido que libera toxinas do nosso corpo, assim como a urina. Você já pensou em usar um produto para inibir sua urina, por que ela tem um cheirinho desagradável? Pois é, são crenças criadas para as pessoas acharem que as substâncias que nosso corpo elimina não são importantes. Mas são, né?

O processo de excreção de toxinas é justamente a forma como o corpo aprendeu a naturalmente se desintoxicar das substâncias que ingerimos e não são aproveitadas em nossos processos. Tais produtos cosméticos citados, que oferecem ação instantânea, porém, momentânea, são invenções de uma indústria que busca a todo custo produzir mercadoria. Uma indústria que cria um ser humano distante de sua natureza, tal qual um boneco, que precisa de infinitas químicas aplicadas a seu corpo para circular em sociedade. Quem sabe podemos falar de uma supremacia dos cosméticos anti-humanos?


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Atualizado: 9 de jun. de 2021

A Ora-Pro-Nóbis é uma PANC (Planta Alimentícia Não Convencional) nativa das Américas tropicais, com distribuição que vai desde a Argentina, passando pelo Brasil e Caribe, até o sul dos Estados Unidos. É da família das Cactáceas, porém, diferente de outros cactos conhecidos, esta planta desenvolve folhagem densa e exuberante. A parte da planta usada para alimentação é justamente a folha. Quando adulta, e bem desenvolvida, assume aparência de arbusto. É considerada uma espécie perenifólia, já que sua folhagem resiste e se mantém densa até mesmo durante invernos rigorosos. O caule da Ora-Pro-Nóbis é fino e fibroso, e apresenta em sua extensão diversos espinhos pontiagudos. A planta desenvolve-se bem em solos variados, tanto à sombra quanto ao sol. Quando chega a regiões que não são seu habitat, pode se comportar como invasora, sufocando espécies vegetais nativas.



A Ora-Pro-Nóbis é rica em proteína, principalmente em sua versão seca e moída, a farinha de Ora-Pro-Nóbis. Nesta versão, a porcentagem de proteína pode chegar a 30%. Ao comparar 100g da farinha com 100g de feijões cozidos, a Ora-Pro-Nóbis apresenta ainda mais proteína que os feijões. Tem baixo teor lipídico, podendo seu usada em dietas com restrição de lipídios. É também rica em cálcio, e quando comparada com o mais popular das fontes de cálcio, o leite e seus derivados, apresenta ainda maior teor do mineral que iogurtes, leites em pó e diversos tipos de queijos. Outro mineral abundante é o ferro, sendo que na versão seca, a presença de ferro é superior que no fígado bovino (cru e grelhado), na beterraba, em todas as folhas (com excessão da salsa crua) e em todos os tipos de leguminosas (com excessão do feijão rajado cru). (ALMEIDA, JUNQUEIRA, SIMÃO E CORRÊA, 2014)


No Brasil, seu uso alimentício já é histórico! Existem registros que datam a utilização da Ora-Pro-Nóbis como complemento nutricional no cotidiano de mineradores já na época do ciclo do ouro, em Minas Gerais. Nesta região, todo o empenho dos trabalhadores era para a extração do minério, e pouco se investia em produção agrícola ou pecuária para a alimentação, assim, os menos favorecidos ficavam por ter grandes dificuldades em adquirir alimentos em fartura. A Ora-Pro-Nóbis, por ser rica em nutrientes, ficou conhecida como a "carne dos pobres". É desta época que data, também, o mito originário do nome da planta. Conta-se que os padres europeus utilizavam a planta, que cresce em formato de arbusto, para criarem barreiras naturais em volta das igrejas. Ali, diversas famílias iam para buscar um tanto de alimento. Os padres, que não queriam ver as barreiras perdendo a função pela desfolhagem, mantinham vigilância para que as folhas não fossem colhidas. Os consumidores, para burlar a vigilância, esperavam os padres começarem seus sermões, na época ainda em latim, e durante o longo ecoar de Ora-Pro-Nóbis! Ora-Pro-Nóbis!, em português - orai por nós, buscavam as folhas escondido.



Ainda hoje, a Ora-Pro-Nóbis é um alimento tradicional da gastronomia de algumas cidades de Minas Gerais. É o caso de Sabará, cidade na região metropolitana de Belo Horizonte, que realiza anualmente o Festival do Ora-Pró-Nóbis. Uma das atrações do festival é o Concurso Inovação, em que a premiação é dedicada ao prato gastronômico mais criativo e saboroso que utiliza da planta como ingrediente principal.


Nos últimos anos, a Ora-Pro-Nóbis e seus benefícios para a alimentação humana e animal tem sido estudada pela comunidade científica. Pode ser considerada um super alimento, devido à seu potencial nutricional. A popularização do veganismo também contribuiu para a popularização do consumo alimentício da planta, devido às suas altas taxas de proteína. O sabor da planta é suave e a textura das folhas é levemente gelatinosa.


Seu consumo pode ser feito com a planta fresca, em saladas, molhos e sucos, cozida e refogada, ou ainda em formato de farinha, adicionando-a a pães e bolos. Infelizmente, a versão fresca da planta é difícil de encontrar para venda em feiras comuns, onde encontramos os vegetais de base da alimentação brasileira. Assim, a melhor forma de adicionar a Ora-Pro-Nóbis em sua alimentação, é cultivando um pé em casa. Felizmente, a planta se desenvolve muito bem em vasos! Como toda planta em vaso, basta alimenta-lá com composto de quando em quando. Só cuida para não se machucar com seus espinhos afiados.



Nas imagens, vemos ramos de Ora-Pro-Nóbis do tipo Pereskia Grandifolia, uma das duas variedades da planta mais encontradas no Brasil. Outra também muito encontrada é a Pereskia Angustifolia.


Você já conhecia esta planta? Faz uso dela na sua alimentação? Se sim, compartilha aqui com a gente quais suas receitas favoritas! É de Florianópolis e tem interesse em plantar Ora-Pro-Nóbis? Entra em contato com a gente pelo Instagram (@plantaenatural) que te arrumamos uma mudinha!

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